Tudo começou com um sorriso. Mesmo agora, não sou capaz
de esquecer aquele meigo e sincero sorriso que me levou à completa ruina.
Embora arrasado, ainda acho graça quando penso no quão irônico isso é... Um
gesto de carinho, um gesto de simpatia ou mesmo um gesto de falsidade. O sorrir
tem várias faces, mas confesso que nunca imaginei que ele pudesse assumir uma
tão cruel.
Estávamos no começo de Outubro. Era um dia quente como
qualquer outro até então. Eu a vi pela primeira vez logo após sair pelo grande
portão, recentemente pintado de preto, do colégio. Ela estava parada ao lado de
um poste do outro lado da rua, no entanto ninguém além de mim mesmo pareceu
notar a presença dela. Ela usava um leve vestido preto e sandálias simples da
mesma cor. Seu cabelo, negro como o breu, estava preso formando um rabo de
cavalo. A princípio não me importei, mas acabei notando que ela procurava
alguém no meio daquela multidão de alunos. Decidi me aproximar e perguntar se
ela queria alguma ajuda. Pra ser sincero, eu não tinha nenhuma segunda atenção,
apenas senti que era isso que eu deveria fazer. No meio do caminho notei que
ela usava um colar, mas não consegui distinguir a forma do pingente. Foi então
que aconteceu pela primeira vez. Ao perceber que eu me aproximava, ela
lançou-me um profundo olhar e, então, sorriu.
Naquela tarde eu fui ao hospital a fim de visitar um
amigo que havia sido atropelado na saída do colégio. Soube que ele não resistiu
e morreu antes de chegar ao hospital. Não que fossemos assim tão próximos, mas
tudo aconteceu bem na minha frente. Tive de ir a delegacia dar meu depoimento
sobre o caso, mas a verdade é que eu não tinha visto absolutamente nada. Só o
que lembrava era de uma garota vestida de preto e de um sorriso. Um policial me
deixou em casa e me recomendou um longo descanso para me recuperar do choque.
Eu deveria estar em choque, não é? Mas eu não estava...
Apesar dos protestos de minha mãe, decidi que estava bem
o suficiente para ir ao colégio no dia seguinte. Curiosamente, o dia não parecia
estar tão quente quanto o anterior, embora o termômetro da estação informasse
que a temperatura era ainda mais alta. No meio da aula eu já não conseguia mais
prestar atenção a nada que o professor dizia e, então, passei a admirar o
jardim pela janela. Ela estava lá. Parada ao lado da única árvore, ela parecia
olhar em direção as salas, novamente procurando por alguém. Usava a mesma roupa
do dia anterior, mas dessa vez o cabelo estava solto. Fiquei olhando na direção
dela por algum tempo, mas ela demorou a notar. Quando me viu, novamente me
fitou e depois sorriu.
Os gritos de todos na turma me assustaram. O sangue que
ainda jorrava na mesa a minha frente pertencia a uma garota que, aparentemente,
havia cortado os pulsos durante a aula. O corte profundo a matou antes mesmo da
ajuda chegar. Era a segunda vez em dois dias que alguém morria diante dos meus
olhos. Qualquer pessoa normal estaria em choque depois disso, mas eu estava
bem. Por alguma razão, eu não dava a mínima para o que havia acontecido até então.
Percebi que só o que eu tinha em mente era o sorriso daquela garota misteriosa.
Eu queria encontra-la, mas como?
Ela continuou aparecendo dia após dia, sempre com o mesmo
vestido preto, com o mesmo colar misterioso e sempre com o mesmo sorriso. Sempre
que ela aparecia, alguém morria na minha frente, mas eu não me importava. Desde
que eu pudesse vê-la de novo no dia seguinte, mais e mais vidas poderiam ser
sacrificadas. Aquele sorriso havia se tornado minha única razão de viver. No
entanto, eu nunca havia conseguido me aproximar de verdade, pois as mortes me
impediam. Os dias ficavam cada vez mais quentes a medida que Outubro se
aproximava do fim, mas eu sentia cada vez mais frio.
Naquele dia ela estava parada em frente a minha casa. Meu
coração disparou ao vê-la. Seria esta minha chance de falar com ela? Eu estava
nervoso e animado ao mesmo tempo. Caminhei lentamente até onde ela estava, me
perguntando o que poderia falar. Nada me veio a mente. Parei diante dela,
incapaz de proferir qualquer palavra. Tudo que fiz foi olhar para ela. Era a
primeira vez que via que seus olhos eram de um intenso vermelho e que seu
pingente tinha o formato de uma foice. Ela sorriu e com este sorriso, minha
vida chegou ao fim.