terça-feira, 24 de setembro de 2013

Um Sorriso

Tudo começou com um sorriso. Mesmo agora, não sou capaz de esquecer aquele meigo e sincero sorriso que me levou à completa ruina. Embora arrasado, ainda acho graça quando penso no quão irônico isso é... Um gesto de carinho, um gesto de simpatia ou mesmo um gesto de falsidade. O sorrir tem várias faces, mas confesso que nunca imaginei que ele pudesse assumir uma tão cruel.
Estávamos no começo de Outubro. Era um dia quente como qualquer outro até então. Eu a vi pela primeira vez logo após sair pelo grande portão, recentemente pintado de preto, do colégio. Ela estava parada ao lado de um poste do outro lado da rua, no entanto ninguém além de mim mesmo pareceu notar a presença dela. Ela usava um leve vestido preto e sandálias simples da mesma cor. Seu cabelo, negro como o breu, estava preso formando um rabo de cavalo. A princípio não me importei, mas acabei notando que ela procurava alguém no meio daquela multidão de alunos. Decidi me aproximar e perguntar se ela queria alguma ajuda. Pra ser sincero, eu não tinha nenhuma segunda atenção, apenas senti que era isso que eu deveria fazer. No meio do caminho notei que ela usava um colar, mas não consegui distinguir a forma do pingente. Foi então que aconteceu pela primeira vez. Ao perceber que eu me aproximava, ela lançou-me um profundo olhar e, então, sorriu.
Naquela tarde eu fui ao hospital a fim de visitar um amigo que havia sido atropelado na saída do colégio. Soube que ele não resistiu e morreu antes de chegar ao hospital. Não que fossemos assim tão próximos, mas tudo aconteceu bem na minha frente. Tive de ir a delegacia dar meu depoimento sobre o caso, mas a verdade é que eu não tinha visto absolutamente nada. Só o que lembrava era de uma garota vestida de preto e de um sorriso. Um policial me deixou em casa e me recomendou um longo descanso para me recuperar do choque. Eu deveria estar em choque, não é? Mas eu não estava...
Apesar dos protestos de minha mãe, decidi que estava bem o suficiente para ir ao colégio no dia seguinte. Curiosamente, o dia não parecia estar tão quente quanto o anterior, embora o termômetro da estação informasse que a temperatura era ainda mais alta. No meio da aula eu já não conseguia mais prestar atenção a nada que o professor dizia e, então, passei a admirar o jardim pela janela. Ela estava lá. Parada ao lado da única árvore, ela parecia olhar em direção as salas, novamente procurando por alguém. Usava a mesma roupa do dia anterior, mas dessa vez o cabelo estava solto. Fiquei olhando na direção dela por algum tempo, mas ela demorou a notar. Quando me viu, novamente me fitou e depois sorriu.
Os gritos de todos na turma me assustaram. O sangue que ainda jorrava na mesa a minha frente pertencia a uma garota que, aparentemente, havia cortado os pulsos durante a aula. O corte profundo a matou antes mesmo da ajuda chegar. Era a segunda vez em dois dias que alguém morria diante dos meus olhos. Qualquer pessoa normal estaria em choque depois disso, mas eu estava bem. Por alguma razão, eu não dava a mínima para o que havia acontecido até então. Percebi que só o que eu tinha em mente era o sorriso daquela garota misteriosa. Eu queria encontra-la, mas como?
Ela continuou aparecendo dia após dia, sempre com o mesmo vestido preto, com o mesmo colar misterioso e sempre com o mesmo sorriso. Sempre que ela aparecia, alguém morria na minha frente, mas eu não me importava. Desde que eu pudesse vê-la de novo no dia seguinte, mais e mais vidas poderiam ser sacrificadas. Aquele sorriso havia se tornado minha única razão de viver. No entanto, eu nunca havia conseguido me aproximar de verdade, pois as mortes me impediam. Os dias ficavam cada vez mais quentes a medida que Outubro se aproximava do fim, mas eu sentia cada vez mais frio.

Naquele dia ela estava parada em frente a minha casa. Meu coração disparou ao vê-la. Seria esta minha chance de falar com ela? Eu estava nervoso e animado ao mesmo tempo. Caminhei lentamente até onde ela estava, me perguntando o que poderia falar. Nada me veio a mente. Parei diante dela, incapaz de proferir qualquer palavra. Tudo que fiz foi olhar para ela. Era a primeira vez que via que seus olhos eram de um intenso vermelho e que seu pingente tinha o formato de uma foice. Ela sorriu e com este sorriso, minha vida chegou ao fim.