sábado, 4 de maio de 2013

Espero o tempo que for


Era outra quarta-feira idiota da minha vida. Aulas chatas de manhã, tendo que aguentar aquelas patricinhas esnobes trocando mensagens de texto durante a aula toda e dando risadinhas histéricas, provavelmente porque uma delas comprou um novo esmalte rosa. Quanta futilidade. Não que eu estivesse prestando atenção na aula... muito pelo contrário, eu só estava querendo tirar uma soneca. Também, quem manda ficar andando de skate até altas horas da noite? Além disso, à tarde eu teria que encarar uma aula de balé, que eu sou forçada a fazer para agradar minha mãe e garantir meu dinheiro no fim do mês. A pior parte é que aqueles três seres cor-de-rosa, Flávia, Karina e Marcela, a última a mais idiota de todas, estarão lá... e como sempre vão aproveitar seus breves momentos sem celular para praticar o único esporte que elas tem capacidade suficiente para aprender: implicar comigo.
Bom, como eu já esperava, não foi uma tarde agradável... nunca era... (mas a Marcela vai ter o que merece...). Pelo menos acabou rápido. Já estava indo embora quando notei que tinha esquecido meu celular na classe. Voltei pra pegar e pra minha infeliz surpresa dei de cara com ela, Marcela, saindo da aula. Momentos de tensão. Mas me controlei... dar uma surra nela seria ótimo, mas poderia me render uma expulsão. Saí do caminho para que ela desfilasse sua prepotência colorida de rosa, a contragosto, claro. Parece que foi ensaiado. Na hora em que ela passou por mim, um garoto de skate passou, quer dizer, colidiu com ela, jogando ambos ao chão. Nossa, foi amor a primeira vista... só que ele não me viu.
Foi muito rápido. Por sorte (ou azar... sei lá) nenhum dos dois se feriu, embora o skate tenha ficado em estado terminal, vindo a falecer horas depois. Recuperado do tombo, o garoto ajudou Marcela a se levantar. Pra que fazer isso? Foram só os olhares se cruzarem pra qualquer retardado que estivesse passando perceber que tinha algo a mais ali. Sinceramente, ainda me pergunto como eles conseguiram falar depois...
“Vo...vo... você está... eh... bem?”
Bom, admito que ver a cara de idiota (mais do que normalmente ela tem) da Marcela, sem conseguir falar ou piscar, foi no mínimo hilário. Só que isso só deixou o garoto mais preocupado... (que ódio)
“Oi, você está bem?” – Perguntou o garoto, colocando a mão no ombro dela.
“Ah... estou sim.”
“Sério, me desculpa. Eu acabei perdendo o controle e você apareceu de repente.”
“Tudo bem... ninguém se machucou.”
“Verdade, só meu skate que parece um pouco danificado...”
“Sério? E dá pra concertar?”
(Insira aqui um palavrão). Aquela patricinha nojenta. Ela estava dando em cima dele! Aquela bruaca cor-de-rosa tinha acabado de conhecer o garoto e estava dando em cima dele!! Eu devia matar ela... o problema é que nenhum dos dois parecia notar que eu ainda estava parada ali. Que ódio!
“Não.” – Respondeu o garoto.
Eles se olharam um minuto e começaram a rir como se fossem amigos de infância. (Insira aqui outro palavrão). Não acreditei quando vi...
“E então, qual o seu nome?”
“Thiago. E você, como se chama?”
“Marcela.”
“Nome bonito. Combina com você.”
O QUÊ?? EU NÃO ACREDITO!! ELE A ELOGIOU...
“Ah... brigada... você costuma ser sempre tão desastrado?”
“Até que não. Costumo ser um ótimo skatista.”
“Tenho minhas dúvidas.”
Eles estavam rindo de novo. Agora, eu me pergunto quais são os motivos que me levaram a ficar ali, estática, sendo ignorada pelos dois... Eu devia ser mesmo uma completa imbecil.
“Por que você não vai me ver competir no sábado? Aí poderia te mostrar que eu não sou tão desastrado assim.”
O QUE? Ele chamou ela pra sair? Não acredito!! Mas é óbvio que ela vai recusar... Imagina se as amigas delas descobrem que ela vai a uma competição de skate?  Além disso, eles tinham acabado de se conhecer... Ela não ia aceitar. Eles são completamente diferentes... Completamente opostos... Imagina só: uma patricinha que amava rosa, celular, internet, bolsas, sapatos e joias e um skatista de tênis e roupas largas, com alargador e boné virado. Era óbvio que a resposta seria aquela... Tão óbvio que decidi sair a francesa... Se bem que não faria diferença o modo como eu saísse, eles nem repararam que eu ainda estava lá quando Marcela respondeu.
“Claro, estarei lá!”
Veio a noite. Saí escondida de casa, como sempre faço, pra ir treinar umas manobras. Afinal, eu ia competir no sábado também. Para minha surpresa, ao chegar à rampa comunitária do bairro, eu encontro com ele. Thiago. Estava sozinho, treinando sua série, que era muito boa pra falar a verdade. Nossa, ele parecia inspirado. Que nojo. Mesmo assim decidi iniciar uma conversa.
Conversamos durante umas três horas. Nossa, nós tínhamos muitas coisas em comum! Ambos gostávamos de tocar guitarra, embora eu não fosse muito boa nisso. Ele até se ofereceu pra me ensinar! Ambos compúnhamos músicas. Ele até disse que depois poderíamos cantar alguma coisa juntos. Gostamos das mesmas bandas, dos mesmos filmes e até mesmo do mesmo sanduíche! A conversa estava tão agradável! Ele disse que amanhã começava a estudar na mesma escola que eu, na mesma sala até. Só resolvi ir embora quando o assunto chegou na Marcela. Disse que tinha que ir dormir e ele me levou em casa. Nossa, é sério, não sei o que ele viu naquela patricinha idiota e metida à besta. Mas amanhã ele vai ver a verdadeira face dela!
Quinta-feira chegou e com ela a decepção. Ele sentou-se ao meu lado na aula, mas assim que tocou o sinal ele foi correndo falar com a Marcela. Ela deu um jeito de despistar as amigas e foi conversar com ele. Minutos depois ele voltou com um grande sorriso no rosto. Basicamente, ela só falava com ele quando ninguém mais estava olhando. Se tivesse alguém perto, ela fingia ignorá-lo. O que era mais revoltante é que ele lidava naturalmente com essa situação! Que ódio!
Os dias foram passando e, novamente, era quarta-feira. Aula de Balé. Bom, pelo menos dessa vez a aula foi útil. Escutei umas coisinhas. Aquela víbora dissimulada da Marcela estava falando mal do Thiago!! Como ela ousa? Concordava com tudo que as amiguinhas dela diziam... Que o cabelo dele era esquisito, que as roupas eram ridículas, etc. Bom, eu comecei a rir. Elas, obviamente, não gostaram. Em especial a Marcela. Depois da aula, ela me esperou sozinha, e disse que tinha que conversar comigo. Irônico e muito divertido. Ela me implorou pra não falar nada pro Thiago. Ela só tinha se esquecido de um detalhe. Eu nunca fui uma ameaça pra ela, não nesse aspecto. Já as amigas dela...
Quinta-feira, o último dia de aula. Foi um dia bem divertido, devo dizer. Estava sentada no meu lugar, como sempre. O Thiago ao meu lado. Fazia um tempo que ele vinha reclamando das atitudes da Marcela quando estava perto das amigas. Será que ele tinha entendido? A garota tinha vergonha dele! Não, não era isso. Ele só queria pedir algo emprestado. A cena que se seguiu foi terrível pra se descrever... A forma como aquelas duas, Flávia e Karina, humilharam ele foi cruel, muito cruel. Mas pior ainda foi a atitude de Marcela ao ser questionada se concordava ou não com as afirmações das duas. Ela se calou. Ficou lá, muda, sem saber se falava alguma coisa ou não. Só quem viu o Thiago depois disso sabe o que ele sentiu. Ele estava arrasado. Finalmente via a verdade e ela doía muito.
Por mais doloroso que fosse pra mim, eu tinha que fazer meu papel de amiga. Era disso que ele precisava. Uma amiga. Não uma garota apaixonada. E foi isso que eu fui. Uma amiga. Escutei tudo o que ele tinha pra dizer, vi ele chorar, escutei ele desabafar. O ajudei a se levantar. Foi uma conversa silenciosa a partir daí. Só o fato de eu estar ali já fazia bem pra ele, o que me deixou bem feliz, admito. Eu não tinha pressa. Nunca tive. Sabia que à hora certa ia chegar. Não importava o tempo que eu tivesse de esperar, eu sempre estaria ao lado dele.  Sempre.
Cinco anos se passaram desde então. Muita coisa aconteceu nesse tempo. Pra começar, Thiago foi campeão brasileiro de skate. Depois, montou uma banda, da qual ele era vocalista e guitarrista. Foi sucesso imediato na internet! Depois ele começou a frequentar a programação da MTV e começaram os shows. Ah é... E ele se apaixonou por mim!! (Claro que essa é a informação mais relevante de todas, pelo menos pra mim). Eis que o destino, enfim, o leva de volta pra aquela cidade na qual tudo começou.
Um mega show. Ia ser o maior em muitos anos na cidade. Passou em todos os canais. Todos sabiam do show! Inclusive duas patricinhas que eram as primeiras da fila pra comprar ingresso. Eu nem acreditei quando vi Flávia e Karina segurando fotos do Thiago. Elas que sempre o humilharam, agora babam por ele? Ironicamente hilário. Decidi não falar com elas. Um pouco mais atrás estava ela, Marcela. Ignorei-a também e segui meu caminho rumo aos bastidores.
Finalmente chegou o grande dia. Centenas de garotas enlouquecidas, dentre as quais reconheci Flávia e Karina, disputavam a tapa um lugar perto do palco. Eu ri muito daquela cena. No entanto, uma coisa me chamou a atenção. Marcela estava do outro lado, tentando entrar escondida nos bastidores. Fui até lá e fiz questão de permitir sua entrada. Eu só enrolei um pouquinho pra que ela entrasse após o início do show.
“O que você faz aqui, Marcela?”
“Eu... só queria me desculpar...”
“Se desculpar ou tentar voltar com ele agora que ele é famoso?”
“Não, eu...”
“Agora ele é bom o suficiente pra você? Agora você não tem mais vergonha dele?”
“Não é isso...”
“Você não mudou nada... ainda é uma víbora dissimulada, mas eu tenho novidades.”
“Não entendo aonde você quer chegar. Sei que você é amiga dele, mas isso é entre ele e eu.”
“Não mais amiga. É mesmo uma pena que você não tenha conseguido enxergar o quanto ele podia ser grande. É uma pena que você não tenha visto a alma boa e grandiosa que ele tem. É assim que termina a história. Nós somos mais que bons amigos.”
“Eu... não acredito...”
“Não? Escute a música. Eu o ajudei a compor. É sobre certa garota que ele conheceu e que o magoou, mas também é sobre outra garota que está sempre aqui pra ele, que está sempre nos bastidores cantando todas as músicas, que é sua maior fã desde sempre e que é o amor da vida dele. É sobre você e sobre mim. Acabou. É de mim que ele gosta.”
Ela chorou. Mas não acho que tenha sido por minha causa. Foi por causa da futilidade dela. Quem sabe agora ela se torne uma pessoa melhor. Torço pra ela encontrar o cara certo, como eu encontrei. Tá... Eu admito que jogar tudo aquilo na cara dela foi ótimo. Ela merecia. Mas vou parar por aqui. Não que a história esteja acabando, pelo contrário, minha história com o Thiago só está começando, o que está acabando é o show.

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