Era outra
quarta-feira idiota da minha vida. Aulas chatas de manhã, tendo que aguentar
aquelas patricinhas esnobes trocando mensagens de texto durante a aula toda e
dando risadinhas histéricas, provavelmente porque uma delas comprou um novo
esmalte rosa. Quanta futilidade. Não que eu estivesse prestando atenção na
aula... muito pelo contrário, eu só estava querendo tirar uma soneca. Também,
quem manda ficar andando de skate até altas horas da noite? Além disso, à tarde
eu teria que encarar uma aula de balé, que eu sou forçada a fazer para agradar
minha mãe e garantir meu dinheiro no fim do mês. A pior parte é que aqueles
três seres cor-de-rosa, Flávia, Karina e Marcela, a última a mais idiota de
todas, estarão lá... e como sempre vão aproveitar seus breves momentos sem
celular para praticar o único esporte que elas tem capacidade suficiente para
aprender: implicar comigo.
Bom, como
eu já esperava, não foi uma tarde agradável... nunca era... (mas a Marcela vai
ter o que merece...). Pelo menos acabou rápido. Já estava indo embora quando
notei que tinha esquecido meu celular na classe. Voltei pra pegar e pra minha
infeliz surpresa dei de cara com ela, Marcela, saindo da aula. Momentos de
tensão. Mas me controlei... dar uma surra nela seria ótimo, mas poderia me
render uma expulsão. Saí do caminho para que ela desfilasse sua prepotência
colorida de rosa, a contragosto, claro. Parece que foi ensaiado. Na hora em que
ela passou por mim, um garoto de skate passou, quer dizer, colidiu com ela,
jogando ambos ao chão. Nossa, foi amor a primeira vista... só que ele não me
viu.
Foi muito
rápido. Por sorte (ou azar... sei lá) nenhum dos dois se feriu, embora o skate
tenha ficado em estado terminal, vindo a falecer horas depois. Recuperado do
tombo, o garoto ajudou Marcela a se levantar. Pra que fazer isso? Foram só os
olhares se cruzarem pra qualquer retardado que estivesse passando perceber que
tinha algo a mais ali. Sinceramente, ainda me pergunto como eles conseguiram
falar depois...
“Vo...vo...
você está... eh... bem?”
Bom,
admito que ver a cara de idiota (mais do que normalmente ela tem) da Marcela,
sem conseguir falar ou piscar, foi no mínimo hilário. Só que isso só deixou o
garoto mais preocupado... (que ódio)
“Oi, você
está bem?” – Perguntou o garoto, colocando a mão no ombro dela.
“Ah...
estou sim.”
“Sério,
me desculpa. Eu acabei perdendo o controle e você apareceu de repente.”
“Tudo
bem... ninguém se machucou.”
“Verdade,
só meu skate que parece um pouco danificado...”
“Sério? E
dá pra concertar?”
(Insira
aqui um palavrão). Aquela patricinha nojenta. Ela estava dando em cima dele!
Aquela bruaca cor-de-rosa tinha acabado de conhecer o garoto e estava dando em
cima dele!! Eu devia matar ela... o problema é que nenhum dos dois parecia
notar que eu ainda estava parada ali. Que ódio!
“Não.” –
Respondeu o garoto.
Eles se
olharam um minuto e começaram a rir como se fossem amigos de infância. (Insira
aqui outro palavrão). Não acreditei quando vi...
“E então,
qual o seu nome?”
“Thiago.
E você, como se chama?”
“Marcela.”
“Nome
bonito. Combina com você.”
O QUÊ??
EU NÃO ACREDITO!! ELE A ELOGIOU...
“Ah...
brigada... você costuma ser sempre tão desastrado?”
“Até que
não. Costumo ser um ótimo skatista.”
“Tenho
minhas dúvidas.”
Eles
estavam rindo de novo. Agora, eu me pergunto quais são os motivos que me
levaram a ficar ali, estática, sendo ignorada pelos dois... Eu devia ser mesmo
uma completa imbecil.
“Por que
você não vai me ver competir no sábado? Aí poderia te mostrar que eu não sou
tão desastrado assim.”
O QUE?
Ele chamou ela pra sair? Não acredito!! Mas é óbvio que ela vai recusar... Imagina
se as amigas delas descobrem que ela vai a uma competição de skate? Além
disso, eles tinham acabado de se conhecer... Ela não ia aceitar. Eles são
completamente diferentes... Completamente opostos... Imagina só: uma patricinha
que amava rosa, celular, internet, bolsas, sapatos e joias e um skatista de
tênis e roupas largas, com alargador e boné virado. Era óbvio que a resposta
seria aquela... Tão óbvio que decidi sair a francesa... Se bem que não faria
diferença o modo como eu saísse, eles nem repararam que eu ainda estava lá
quando Marcela respondeu.
“Claro,
estarei lá!”
Veio a
noite. Saí escondida de casa, como sempre faço, pra ir treinar umas manobras.
Afinal, eu ia competir no sábado também. Para minha surpresa, ao chegar à rampa
comunitária do bairro, eu encontro com ele. Thiago. Estava sozinho, treinando
sua série, que era muito boa pra falar a verdade. Nossa, ele parecia inspirado.
Que nojo. Mesmo assim decidi iniciar uma conversa.
Conversamos
durante umas três horas. Nossa, nós tínhamos muitas coisas em comum! Ambos
gostávamos de tocar guitarra, embora eu não fosse muito boa nisso. Ele até se
ofereceu pra me ensinar! Ambos compúnhamos músicas. Ele até disse que depois
poderíamos cantar alguma coisa juntos. Gostamos das mesmas bandas, dos mesmos
filmes e até mesmo do mesmo sanduíche! A conversa estava tão agradável! Ele
disse que amanhã começava a estudar na mesma escola que eu, na mesma sala até.
Só resolvi ir embora quando o assunto chegou na Marcela. Disse que tinha que ir
dormir e ele me levou em casa. Nossa, é sério, não sei o que ele viu naquela
patricinha idiota e metida à besta. Mas amanhã ele vai ver a verdadeira face
dela!
Quinta-feira
chegou e com ela a decepção. Ele sentou-se ao meu lado na aula, mas assim que
tocou o sinal ele foi correndo falar com a Marcela. Ela deu um jeito de
despistar as amigas e foi conversar com ele. Minutos depois ele voltou com um
grande sorriso no rosto. Basicamente, ela só falava com ele quando ninguém mais
estava olhando. Se tivesse alguém perto, ela fingia ignorá-lo. O que era mais
revoltante é que ele lidava naturalmente com essa situação! Que ódio!
Os dias
foram passando e, novamente, era quarta-feira. Aula de Balé. Bom, pelo menos
dessa vez a aula foi útil. Escutei umas coisinhas. Aquela víbora dissimulada da
Marcela estava falando mal do Thiago!! Como ela ousa? Concordava com tudo que
as amiguinhas dela diziam... Que o cabelo dele era esquisito, que as roupas
eram ridículas, etc. Bom, eu comecei a rir. Elas, obviamente, não gostaram. Em
especial a Marcela. Depois da aula, ela me esperou sozinha, e disse que tinha
que conversar comigo. Irônico e muito divertido. Ela me implorou pra não falar
nada pro Thiago. Ela só tinha se esquecido de um detalhe. Eu nunca fui uma
ameaça pra ela, não nesse aspecto. Já as amigas dela...
Quinta-feira,
o último dia de aula. Foi um dia bem divertido, devo dizer. Estava sentada no
meu lugar, como sempre. O Thiago ao meu lado. Fazia um tempo que ele vinha
reclamando das atitudes da Marcela quando estava perto das amigas. Será que ele
tinha entendido? A garota tinha vergonha dele! Não, não era isso. Ele só queria
pedir algo emprestado. A cena que se seguiu foi terrível pra se descrever... A
forma como aquelas duas, Flávia e Karina, humilharam ele foi cruel, muito
cruel. Mas pior ainda foi a atitude de Marcela ao ser questionada se concordava
ou não com as afirmações das duas. Ela se calou. Ficou lá, muda, sem saber se
falava alguma coisa ou não. Só quem viu o Thiago depois disso sabe o que ele
sentiu. Ele estava arrasado. Finalmente via a verdade e ela doía muito.
Por mais
doloroso que fosse pra mim, eu tinha que fazer meu papel de amiga. Era disso
que ele precisava. Uma amiga. Não uma garota apaixonada. E foi isso que eu fui.
Uma amiga. Escutei tudo o que ele tinha pra dizer, vi ele chorar, escutei ele
desabafar. O ajudei a se levantar. Foi uma conversa silenciosa a partir daí. Só
o fato de eu estar ali já fazia bem pra ele, o que me deixou bem feliz, admito.
Eu não tinha pressa. Nunca tive. Sabia que à hora certa ia chegar. Não
importava o tempo que eu tivesse de esperar, eu sempre estaria ao lado
dele. Sempre.
Cinco
anos se passaram desde então. Muita coisa aconteceu nesse tempo. Pra começar,
Thiago foi campeão brasileiro de skate. Depois, montou uma banda, da qual ele
era vocalista e guitarrista. Foi sucesso imediato na internet! Depois ele
começou a frequentar a programação da MTV e começaram os shows. Ah é... E ele
se apaixonou por mim!! (Claro que essa é a informação mais relevante de todas,
pelo menos pra mim). Eis que o destino, enfim, o leva de volta pra aquela
cidade na qual tudo começou.
Um mega
show. Ia ser o maior em muitos anos na cidade. Passou em todos os canais. Todos
sabiam do show! Inclusive duas patricinhas que eram as primeiras da fila pra
comprar ingresso. Eu nem acreditei quando vi Flávia e Karina segurando fotos do
Thiago. Elas que sempre o humilharam, agora babam por ele? Ironicamente
hilário. Decidi não falar com elas. Um pouco mais atrás estava ela, Marcela.
Ignorei-a também e segui meu caminho rumo aos bastidores.
Finalmente
chegou o grande dia. Centenas de garotas enlouquecidas, dentre as quais
reconheci Flávia e Karina, disputavam a tapa um lugar perto do palco. Eu ri
muito daquela cena. No entanto, uma coisa me chamou a atenção. Marcela estava
do outro lado, tentando entrar escondida nos bastidores. Fui até lá e fiz
questão de permitir sua entrada. Eu só enrolei um pouquinho pra que ela
entrasse após o início do show.
“O que
você faz aqui, Marcela?”
“Eu... só
queria me desculpar...”
“Se
desculpar ou tentar voltar com ele agora que ele é famoso?”
“Não,
eu...”
“Agora
ele é bom o suficiente pra você? Agora você não tem mais vergonha dele?”
“Não é
isso...”
“Você não
mudou nada... ainda é uma víbora dissimulada, mas eu tenho novidades.”
“Não
entendo aonde você quer chegar. Sei que você é amiga dele, mas isso é entre ele
e eu.”
“Não
mais amiga. É mesmo uma pena que você não tenha conseguido enxergar
o quanto ele podia ser grande. É uma pena que você não tenha visto a alma boa e
grandiosa que ele tem. É assim que termina a história. Nós somos mais que bons
amigos.”
“Eu...
não acredito...”
“Não?
Escute a música. Eu o ajudei a compor. É sobre certa garota que ele conheceu e
que o magoou, mas também é sobre outra garota que está sempre aqui pra ele, que
está sempre nos bastidores cantando todas as músicas, que é sua maior fã desde
sempre e que é o amor da vida dele. É sobre você e sobre mim. Acabou. É de mim
que ele gosta.”
Ela
chorou. Mas não acho que tenha sido por minha causa. Foi por causa da
futilidade dela. Quem sabe agora ela se torne uma pessoa melhor. Torço pra ela
encontrar o cara certo, como eu encontrei. Tá... Eu admito que jogar tudo
aquilo na cara dela foi ótimo. Ela merecia. Mas vou parar por aqui. Não que a
história esteja acabando, pelo contrário, minha história com o Thiago só está
começando, o que está acabando é o show.
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