O que eu faço agora? Nem sei por que fiz aquilo. Eu
não devia ter feito aquilo. Ela não vai me perdoar nunca. Ou vai? Não, é claro
que não vai. Será que eu ligo? Melhor não, ela não vai atender mesmo. Eu sou um
grande imbecil. Pior é que foi bom, muito bom. Por mais que eu tente, acho que
não vou esquecer o dia de ontem.
Era uma sexta-feira normal na escola. A aula de
biologia estava um saco, pra variar, e eu estava quase dormindo. Minha melhor
amiga me deu um tapa na nuca, ela nunca me deixava dormir na aula, e eu me
virei pra repreendê-la, mas não consegui fazê-lo. Nos últimos dias eu não
conseguia brigar com ela, toda vez que eu a olhava só via aqueles olhos verdes
tão lindos e me perdia dentro deles. Não sabia explicar o que era aquilo, mas
era estranho.
Eu a conhecia há muitos anos. Desde que me mudei
pra cá nós somos vizinhos. Como somos os únicos jovens na rua, somos amigos
desde sempre. Em todos esses anos eu nunca tinha me sentido assim perto dela. O
que estava havendo?
Acabou a aula e nós fomos embora juntos, como
sempre fazíamos. Quando éramos mais novos, nós íamos de mãos dadas. A mediada
que fomos crescendo, isso deixou de acontecer, mas já há alguns dias eu queria
muito, muito mesmo, que esse hábito voltasse. Queria caminhar de mãos dadas com
ela, queria estar perto dela, queria...
Estávamos na frente da casa dela e eu, enfim,
decidi tomar uma atitude. Na verdade eu não cheguei a pensar sobre isso, foi
mais instintivo mesmo. Em um movimento súbito, segurei o braço dela, impedindo
que ela entrasse. Ela se virou e me perguntou o que o que tinha acontecido. Eu
a olhei e disse que tinha que mostrar algo pra ela. Ela me perguntou o que era.
Eu disse: “Isso”. Fiz um movimento tão rápido que nem mesmo eu vi. Eu a beijei.
Foi rápido, mas foi bom. Depois acho que percebi o que tinha feito e corri
feito um louco pra minha própria casa, deixando ela ali, na frente da casa dela
e sem entender o que tinha acontecido. Fui direto pro meu quarto e comecei a
pensar no que eu iria fazer. Passei a noite em claro. Ainda bem que
era sábado. Não sabia o que fazer.
Eu estava completamente perdido nos meus
pensamentos, me culpando pelo o que eu tinha feito. Me assustei ao ouvir o meu
celular tocando. Corri pelo quarto atrás do meu telefone (vivo esquecendo onde
deixei). Ao ver quem estava me ligando, tomei um susto maior ainda: era ela.
Atendi.
“Oi, olha, sobre ontem...”
“Espera, eu queria conversar com você pessoalmente,
você se importa se eu for até aí?”
“Não. Tô te esperando então.”
Droga. Ela ia vir aqui e me chamar de tudo quanto é
nome. Vai dizer que eu sou idiota e cafajeste e que ela nunca mais vai querem
me ver. Mas tenho que admitir que lá no fundo eu tinha esperanças de que ela ia
dizer que gostou do beijo e que não tinha nada a ver. Só tinha uma coisa que eu
sabia que ela não ia dizer: que ela gostava de mim. Eu sei disso, pois dias
atrás ela me disse que tava a fim de um cara lá da escola. Acho que foi quando
eu ouvi isso que eu percebi o quanto eu gostava dela.
Corri até a porta quando ouvi o interfone. Ela
entrou e nós fomos em silêncio, um doloroso silêncio de quem não sabe o que
dizer, até o meu quarto. Nos sentamos um de frente pro outro e nos encaramos um
minuto.
“Olha, sobre ontem, me desculpa. Não sei por que
fiz aquilo.”
“É sobre isso que eu queria falar com você.”
“É sério, vou entender se você não quiser mais
falar comigo. Eu não devia ter te beijado daquele jeito.”
“Não, não devia. Mas...”
Eu notei algo esquisito: ela estava nervosa. Até
parecia que ela não estava tendo a coragem necessária para me dizer alguma
coisa. Não sabia o que ela ia dizer, mas pela primeira vez me senti
verdadeiramente confiante.
Com alguma dificuldade, ela continuou:
“... mas é que... foi, tipo... o meu primeiro
beijo.”
“É eu sei. Me desculpe, sério. Eu sei que você
queria que seu primeiro beijo fosse com o tal cara de quem você gosta.
Desculpa.”
Eu estava querendo gritar, mas só o que eu consegui
foi chorar. Não sou de chorar, mas naquela hora eu não consegui me segurar. Ela
viu que eu estava chorando e se aproximou, sentou-se ao meu lado e me abraçou.
Naquela hora tudo sumiu. Aquele abraço me consumiu por completo. Eu poderia
ficar ali pro resto da minha vida. Eu achava que tudo estava perfeito, então eu
a ouvi dizer baixinho:
“Meu primeiro beijo foi com o garoto que eu gosto.
Eu gosto de você. Mas achei que você fosse achar que eu era idiota, tive medo
de te perder.”
Acho que entrei em choque, não sei bem. Só sei que
aquele momento perfeito ficou ainda melhor ao ouvir essas palavras. Ela gosta
de mim!
“Me perder? Nunca. Eu também gosto de você. Desde
sempre, eu acho.”
Após um breve minuto de silêncio, um delicioso
silêncio de quem não sabe o que dizer, aconteceu um segundo primeiro beijo. Só
que dessa vez nenhum dos dois foi surpreendido.
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