sábado, 4 de maio de 2013

Sarah


   Sarah correu. Correu como nunca poderia imaginar correr um dia. A adrenalina faz isso conosco. Ela nos torna capazes de superar barreiras que considerávamos intransponíveis. Sarah certamente não seria tão corajosa e muito menos tão veloz em condições normais, mas aquela noite certamente não estava sendo normal em nenhum aspecto. A única chance de Sarah era correr...
   Quando Sarah acordou naquela fatídica manhã de Sábado, ela não podia imaginar a série de desventuras que a aguardavam dali a poucas horas. Acreditando ser um sábado como qualquer outro, ela acordou, pontualmente, as oito da manhã e exercitou-se até as nove. Tomou um banho, arrumou o cabelo e, então, desceu as escadas e sentou-se a mesa para tomar o café-da-manhã com os pais e os irmãos.
   Após o café ela deitou-se no sofá da sala e pôs-se a assistir seus desenhos animados favoritos. A maioria das pessoas que conhecem Sarah a descrevem como uma garotinha mimada no auge de seus 17 anos. Ela era do tipo de garota que ama Looney Tunes, Scooby Doo, Avatar, entre vários outros. Seu quarto era absolutamente todo cor de rosa e era o maior orgulho que ela tinha na vida, embora todos achassem isso um exagero. Apesar do que se possa concluir, é preciso ressaltar que Sarah era uma garota muito estudiosa e possuia um sentimento de justiça muito forte. Ela detestava toda e qualquer forma de injustiça que possa existir.
   Sarah tinha um único defeito importante: ela era uma medrosa irracional! Ela tinha medo de quase tudo... desde uma simples barata até do terrível e gigantesco lobo cinzento com três caudas e cinco fileiras de dentes com o qual ela sonhara aos oito anos... Sim, ela tinha alguns medos bem estranhos. Você por acaso conhece mais alguém que tenha medo de anéis, pó compacto, mesas de centro e de quadros do pintor italiano Caravaggio? É... Sarah era a única pessoa no mundo a temer isso. Porém, nenhum de seus medos era tão irracional quanto seu medo de fantasmas. Ela era o tipo de pessoa que via um filme de fantasmas e passava uma semana inteira com medo de dormir. Só pra se ter ideia, quando ela assistiu "Os Caça Fantasmas" ela passou três dias com medo de dormir e de qualquer um usando macacão!!
   A tarde naquele terrível dia, ela foi até a casa de sua prima, pois as duas iriam assistir a um filme. Para a tristeza de Sarah, o filme escolhido era de terror e possuía uma boa dose de fantasmas. Com receio de chatear a prima, ela aceitou, relutantemente, assistir o filme. Foram três intermináveis horas de choro, gritos, olhos fechados, gritos em meio ao choro e com os olhos fechados... O único momento de calmaria foi quando sua tia acendeu a luz da sala após o término dos créditos, que tinham fantasmas em volta. É claro que Sarah quase desmaiou de susto com o barulho repentino do interruptor, mas isso não vem ao caso. A questão é que ela deveria ter pressentido o que a aguardava quando começou a ver o tal filme...
   Já era noite quando Sarah despediu-se de sua prima e recusou a carona de sua tia com a desculpa de que precisava caminhar um pouco. Claro que se ela tivesse aceitado a carona ela teria tido a chance de evitar cada um dos trágicos acontecimentos que a aguardavam apenas a duas quadras dali, na esquina da rua onde ela morava. Infelizmente todos cometemos erros... Sua tia disse para que ela se apressasse e para que tomasse cuidado. Mais uma vez sou forçado a dizer que nenhuma das três poderia sequer imaginar o que aconteceria...
   A rua em que Sarah se encontrava naquele momento era, em geral, até bem movimentada naquela hora da noite. Existiam uma dúzia de bares que ficavam abertos até meia noite e várias lojinhas que só fechavam as onze horas. A iluminação era excelente, de modo que uma garota como Sarah poderia passar por ali sem problemas em um dia comum. Este, no entanto, não era um dia comum... Nenhum bar estava aberto, tampouco as lojinhas. Estava mais escuro que de costume e a iluminação falhava. No fim da rua havia um único poste que piscava com um intervalo de cerca de cinco segundos. Ele ficava logo em frente a casa de Sarah e seria o último pelo qual ela teria de passar.
"Que estranho" - Pensava Sarah enquanto caminhava o mais rápido que podia.
   Ela estava na metade do caminho quando foi tomada por um calafrio que subia velozmente por sua espinha. Ela parou imediatamente e o frio ficou maior. No entanto, não havia o menor sinal de vento. Ela voltou a andar, agora sem o mesmo ímpeto. Aos poucos ela foi sentindo o medo tomando conta dela. A sensação era desesperadora! A essa altura ela já tinha completado três quartos do caminho e tudo parecia assustador. O silêncio gélido que a cercava aumentava exponencialmente seu desespero, mas ela não era capaz de correr. Quando ela estava a poucos passos de chegar ao penúltimo poste de luz um grito de desespero ao longe a fez parar novamente.
"O... o... o que foi isso?" - Ela se perguntou mentalmente. - "Por que não consigo correr?"
   Ela voltou a andar e sentiu uma gota muito fria de suor descer pelo seu rosto. De repente ela estava chorando. Ela ia devagar e passo a passo se aproximava do último poste. Ele estava apagado quando ela iniciou sua travessia. Cinco segundos se passaram muito devagar, como se cada segundo tivesse a intenção de dar a ela a chance de fugir, mas ela não o fez. A luz voltou a se acender e Sarah parou. A respiração dela parou durante aqueles cinco segundos em que a luz manteve-se acesa. Novamente cada segundo pareceu demorar uma eternidade pra passar. Quando a luz acendeu, Sarah olhou pro chão e então ela viu: uma sombra além de sua própria sombra. Uma sombra que não estava lá antes. Parada na mesma posição, Sarah aguardou. A luz voltou a se apagar. Tomada por uma coragem tola, a garota lentamente se virou para o lugar de onde vinha a tal sombra. Ela não via nada. Mais uma vez o tempo era cruel e os cinco segundos pareciam não querer passar. A luz voltou a acender. E Sarah correu...

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